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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Práticas corporais da tribo sero-Dahlam

Convivi cerca de um mês com um grupo cuja forma de lidar com o próprio corpo envolve elementos comumente tratados em separado: dor e satisfação. Os sero-Dahlam não são uma tribo de laços étnicos, mas de hábitos, a qual tem crescido por todo o mundo desde a segunda metade do século XX. Possuem práticas surpreendentes de autoflagelação e sadismo.

Entre os sero-Dahlam, há indivíduos do sexo feminino e do masculino, jovens e idosos, embora essa última faixa etária seja encontrada com mais dificuldade. Eles se reúnem com frequência variada em templos espalhados pelas cidades. As metrópolos possuem vários, enquanto as cidades pequenas nem tantos, mas é incrível a proliferação desses santuários da dor nas últimas décadas.

Alguns membros vão sozinhos, outros em bando. Dentro dos templos, uma infinidade de máquinas e acessórios que auxiliam o autoflagelo. Há alguns Dahlam pertencentes a uma casta superior. São eles quem enumeram as lições de tortura e vigiam os membros. Se o praticante não estiver cumprindo a lição a rigor, eles gritam, provocam, intimidam ou seduzem a fim de que o indivíduo finalize todo o ritual.

Existem dezenas de tipos diferentes de rituais. Em um deles, as mulheres Dahlam amarram receptáculos de areia nos braços e pernas. Algumas realizam danças específicas, frenéticas, com os recipientes presos ao corpo; outras erguem blocos de chumbo até a exaustão total. Às vezes, em uma espécie de castigo consentido, elas oferecem ajuda entre si para que os receptáculos sejam encaixados com exatidão.

Há diversas máquinas no interior dos santuários Dahlam. Algumas contorcem o corpo, outras servem de apoio para os blocos de chumbo. Há máquinas específicas para ferir braços, pernas, tórax, costas. A maioria dos Dahlam só deixa o templo ao sofrer lesões pelo corpo inteiro. A dor não é o limite: mesmo abatendo-se com os rituais, eles retornam dia após dia para se agredir e ver os outros se agredirem. A excentricidade dos rituais de corpo dos sero-Dahlam assemelha-se à da tribo Nacirema, estudada por Horace Minner.

Alguns pesquisadores creem que os sero-Dahlam obtêm prazer com os rituais sádicos, uma vez que os indivíduos não comparecem aos templos por coerção. Em seis meses de observação, notei que os rituais fazem com que os corpos dos Dahlam se deformem com o passar do tempo; em alguns casos, ficam horripilantes de tão inchados. Contraditoriamente, eles se vangloriam da deformidade. Quanto mais o corpo for avolumado ou dilatado, mais atração exercem no indivíduo do sexo oposto.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Que relativismo cultural é esse?

O multiculturalismo é um termo cuja aplicação nunca foi vista com tanta clareza quanto nos dias atuais. Ele pode ser entendido como a "mistura de culturas" [e nesse sentido o Brasil é um dos países mais multiculturais do globo]; está sempre associado ao relativismo cultural [como um atalho para a compreensão dos variados costumes dos diversos povos do planeta] e é intensificado pelo processo de globalização.

É conveniente explicitar aqui que o fato de compreender o outro, a prática da alteridade em si, não equivale a aceitar ou corroborar determinada prática. Por exemplo: em muitas nações do Oriente Médio, a mulher é preterida em relação ao homem em direitos. Na Arábia Saudita, elas nem podem conduzir veículos. Uma pesquisa sobre os costumes locais - uma tentativa de transformar o exótico da distinção por gênero dos sauditas em algo familiar - fornecerá insumos para a compreensão dessa cultura, do porquê de ser assim. Não significa, porém, que fortaleço esses hábitos. Minha opinião pessoal é de repúdio à qualquer discriminação, seja étnica, sexual, religiosa etc. Como todo jornalista, creio que os direitos humanos - compilados em um documento oficial da ONU em 1948 - devam ser promovidos e preservados.

Então para quê serve esse papo de cultura pra lá, cultura pra cá, visão de um e visão de outro? Para desmitificarmos preconceitos e compreendermos como a coisa funciona de fato. Todos concordam que um relato de um jornalista que conviveu por três meses com
índios Fulni-ô, em uma aldeia no interior de Pernambuco, é potencialmente mais rico, detalhista e próximo da realidade da tribo do que de um pesquisador que recolhe apenas dados em bytes através de seu computador em São Paulo. Com a alteridade aprendemos a "sair da nossa garrafa" (nas palavras de um professor meu) e ver que o mundo é mais do que as nossas impressões sobre ele.